17/12/2009

“Êi moço, abre a porta pra mim!”

Que o transporte coletivo de São Luís é ineficiente isso não é novidade para ninguém. Esse é um serviço que tem prejudicado principalmente os moradores deste sítio urbano. É bom que se diga que existem os serviços que são prestados pela iniciativa privada, que é o caso dos ônibus que servem as linhas em bairros densamente povoados como é o caso da Cidade Operária, que faz jus ao nome em que em seu entorno existem inúmeras ocupações, parte delas órfãos de todas as políticas públicas urgentes, essenciais e necessárias para a cidadania e, ainda, serve de válvula de escape a uma eterna celeuma valorada pela expressão metropolização.


E esta condução textual segue viagem à área do Itaqui-Bacanga, em que não é diferente a situação do transporte coletivo, e para o Maiobão outro conjunto habitacional que, assim como a Cidade Operária, tem vários pais e que também ladeia-se por muitas ocupações – que pertence ao município de Paço do Lumiar – Neste grande parte de sua população desenvolve suas atividades em diversos locais desta Ilha. A exemplificação destes bairros serve apenas para tentar mostrar a quem possa resolver pelo menos parte desses os transtornos vividos de maneira geral que só se agravam. Isso porque as já insuficientes avenidas não comportam mais o volume de carros que circulam diariamente nesta Ilha. O transporte de ônibus coletivo em São Luís é um verdadeiro deus-nos-acuda. Bom seria apelar para o prefeito desta cidade, senão aos vereadores que devem observar isto pelo menos nos locais que eles próprios arrogam-se de suas “bases”, talvez, quem sabe ao próprio MP, ou teremos que esperar nova empreitada persuasiva de uma outra estação eleitoreira!


Os problemas que envolvem o trânsito de São Luís não são poucos. Para que se tenha se tenha uma idéia, poderíamos tecer desde a inexistência de faixas verticais, horizontais aos semáforos ou mesmo até a falta da educação para o trânsito tão necessária para todos. Isto deve e pode ser interagido em noções de cidadania ou quem sabe, “enlatado’’ num projeto multicolorido. Mas nos prenderemos a pontuar alguns exemplos de descaso, omissão, inexistência de planejamento ou falta de vontade política e mesmo para no enxugar dos verdadeiros banhos de água de chuva e esgoto que todos constantemente tomamos à mercê de um pedido ao Pai e que somente alguma providência divina seja tomada. Mas eu acredito que os homens são filhos de Deus! Acredito que as autoridades conhecem e se preocupam com alguns dos fatores que têm gerado a cada dia a nossa cidade mais violeta.


Mas é não é só isso, as paradas de ônibus de nossa cidade é um exemplo clássico de como a paisagem está feia ou de todo o que há é um espaço vazio cheinho de gente molhada ou escondida atrás de postes ou outros improvisos. As paradas ou abrigos, quando existem, a maioria está em péssimo estado de conservação, há mesmo os casos que as paradas de ônibus desta capital estão depredadas, em péssimo estado de conservação, há até as que o poder público nunca colocou sequer uma meançaba. Aí, então é querer demais! Querer de menos seria enfeitar as vias de troncos de carnaúba ou outra espécie da vegetação nordestina.


É urgente que esta situação seja resolvida. O que nós usuários sabemos é que não pode é continuar do jeito que está. Pois passa inverno e chega o verão e nada é feito no sentido de humanizar os nossos abrigos. Isto é regra geral, serve tanto para as paradas do centro, dos bairros mais próximos e, por ironia do destino, o problema se agrava cada vez mais quando se avança para a dita periferia.


Falo isso como usuário de transporte coletivo de São Luís, desde os idos tempos de república, quando usando essa opção, ia à casa da minha avó aos finais de semana no São Cristóvão. Lembro-me bem dos busu da empresa São Luís, ônibus compridos, pintado de amarelo com uma lista azul no meio e que até chegar ao destino final eu permanecia sentado bem atrás naquela tampa do motor com um calor infernal. Nesse itinerário passávamos pela Santos Dumont. Tudo era muito mais simples. Agora, a Avenida Santos Dumont está muito pior! É uma merda só! Alguém precisa tirar aquela avenida da merda ou mesmo tirar a merda da avenida. Isso fede. Esgotos abertos correndo no meio da via, mas que via se ali é só buracos! Por falar nisso, mesmo a mídia local dando ênfase quase que diariamente a este problema, há omissão, descaso ou falta de interesse público, um enigma... Posto isto, não sou capaz de desvendar.


Avenida continua como se ali tivessem enterrado uma cabeça de cavalo, é um exemplo fiel de que muita coisa está errada e faz tempo. Como pode uma via pública tão importante que dá acesso a muitos bairros desta cidade e que, muito bem poderia amenizar a situação do fluxo de veículos na capital de nosso estado, ficar desse jeito?


Percebe-se, em São Luís, inúmeros problemas que vão desde a falta de estrutura e saneamento das vias, ônibus em péssimas condições e lotados feito latas de sardinha, ineficiente serviço nos terminais e o pior: desrespeito principalmente aos idosos e as crianças, desrespeito ao ser humano de todas as idades. Nessa ótica, não dá nem para dizer quem é que sofre mais se são estes ou aqueles ou se é a população de um modo geral. A ineficiência nesse sentido é generalizante.


Para que se tenha uma idéia, em boa parte dos terminais, ou por falta de educação ou ineficiência no serviço prestado pelos agentes públicos, há um desrespeito generalizado: os passageiros que estão nos terminais não esperam que os de dentro do ônibus desçam estes, por sua vez, são até molestados por tal insensatez. O que existe é uma corrida desesperada pelo suposto melhor lugar. Faz parte do individualismo crescente, mas também pela ausência de ordem.


Como disse, sou usuário de transporte coletivo há muito tempo e geralmente faço o percurso de casa para o trabalho e da Seduc para a Cidade Operária e em dias de aula, interrompo esse itinerário mais habitual e puxo a sirene após o viaduto do Café. Um dia desses, flagrei senas de desrespeito ao outro, nesse emaranhado sistema decadente de transporte coletivo de São Luís. Nessa parada rumo ao jus, “Ubis societas, íbis jus”, presencie uma criança que estava fardada que deveria ter de nove a dez anos de idade clamando: “Êi!!! Moço!!! Abre a porta pra mim! Abre a porta pra mim, por favor!” Após muita insistência o motorista abriu a porta do ônibus para o menor colegial e acompanhei atentamente os olhares enquanto percebia a aflição que tomou conta deste menino que na sua inocência subiu degraus acima. O condutor seguiu a trajetória do menino com um olhar de repulsa, assim como eu perplexo acompanhei a cena, uma vez que não consigo banalizar a falta de respeito que nós que temos a auto- definição de seres humanos, praticamos uns com os outros. O que o condutor do ônibus quis dizer não sei. Mas a mensagem que ficou gravada na minha consciência cidadã foi a de que nem todos estamos preparados para viver em sociedade. Isso é uma tristeza! Pudera ainda existem empresas que reciclam pessoas! Todos somos muito importantes para que a vida e os valores continuem se sobrepondo a nossos propósitos, às nossas vontades. Eu sei que “nem tudo pode ser perfeito e nem tudo pode ser bacana”.


Olha senhores, de quando em vez, observo centenas de crianças tomando ônibus ali, daquelas escolas públicas da Cidade Operária, quando os ônibus param, os meninos correm em disparadas como se quisesse traduzir uma única opção: um quê de desconfiança de que o ônibus vai não parar. Existem as exceções de que os motoristas param voluntariamente, mas cada vez menores. Aliás, como sofrem crianças e idosos nos transportes coletivos de São Luís. Como sofremos e nos submetemos a uma verdadeira tortura. E o código constitucional é muito claro: “nenhum ser humano pode ser submetido a tratamento desumano e degradante. Apesar da minha insipiência nesta área, bem como naquela, rogo-me que isto também passa pela garantia fundamental do direito de ir e vir. O fato é que todos somos desrespeitados. Que bom que Deus nos fez mortais!


Apenas quis contribuir com uma problemática que não se esgota apenas na parte material do transportes coletivos, mas que presumo seja uma relação interativa, subjetiva e muitas vezes intersubjetiva.

16/12/2009

Porque Considerei Importante

Você diz: isso é impossível
Deus diz: tudo é possível
Você diz: Já estou cansado
Deus diz: eu te darei o repouso
Você diz: ninguém me ama de verdade
Deus diz: Eu te amo
Você diz: eu não tenho condições
Deus diz: minha graça é suficiente
Você diz: eu não vejo nada
Deus diz: eu guardarei teus passos
Você diz: eu não posso fazer
Deus diz: você pode fazer tudo
Você diz: dói
Deus diz: eu te livrarei da angústia
Você diz: não vale a pena
Deus diz: tudo vale a pena
Você diz: não mereço perdão
Deus diz: eu te perdôo
Você diz: não vou conseguir
Deus diz: suprirei todas as suas necessidades
Você diz: estou com medo
Deus diz: eu não te dei um espírito de medo
Você diz: estou sempre frustrado
Deus diz: confia-me todas as tuas preocupações
Você diz: eu não tenho talento suficiente
Deus diz: eu te dou sabedoria
Você diz: Não tenho fé
Deus diz: eu dei a cada um uma medida de fé
Você diz: eu me sinto desesperado
Deus diz: eu nunca te deixarei nem desampararei

14/12/2009

Poema, apenas!

Um verso meu
Estende-me a mão,
Amiga
Que te dou este verso meu
Que me declaro
Derramo-me em amor,
Te dou meu ser,
Apenas.

Leia este verso meu
Que te darei poemas,
Encantos, jardins e essências...
Aceite este verso teu
Que te darei meu necta,
Amor,
Apenas.

Mais um verso
Que poema
Serena, morena
Então aceite este verso meu
Que é teu poema,
Apenas.

Nilson Ericeira

11/12/2009

Meu país e a “política” patética

Não me surpreende os incidentes que acontecem em Brasília. Em Brasília, sede do poder da República Federativa do Brasil, capital do Brasil, centro do poder, que nasceu de forma planejada para gerir políticas, legislações, ações, e órgãos máximos fielmente vigilantes ao cumprimento das leis, para o desenvolvimento da nação brasileira, como símbolo maior entre as capitais, e não para fabricar, proliferar, dotar e adotar corruptos, mas paradoxalmente, hoje, Brasília também representa entre outros símbolos, o da capital de inescrupulosos “políticos” cujas práticas envergonham a nação brasileira.

Eles vêm de todos os cantos deste país continental, entram e saem, discursam, professam: viva o povo brasileiro! Não são, todos, mas pudera, se fossem, a regra se tornaria menos interessante.   O Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste, em todos os poderes há hospedagem de ineficientes agentes públicos cujo respeito pela sociedade é inexistente. Esse é o pessoal que goza das benéfices e mordomias e que no mesmo momento quando estão na rapinagem, na égide de seus espíritos maus, milhões de brasileiros espremem o suor e sangue de seu corpo em forma de impostos para bancar mordomias e mandados inócuos, que não servem para nada, a não ser para eles próprios ou para um grupo de amigos  ou familiares coniventes, lenientes e cegos a tudo que está a seu redor. Mas Brasília não é assim. Os brasileiros também não o são.

O povo brasileiro é honrado, trabalhador e honesto. Esta á a regra. A exceção é o que fazem os hospedeiros de votos, políticos corruptos, que não dignificam a altivez desse povo. Esses “políticos” acabam não valorando nem mesmo a saliva gasta em seus lábios que parecem treinados para dizer o que eles imaginam que o povo quer ouvir e, dessa forma, continuarem fazendo da política um picadeiro tupiniquim. Política, em sua essência, nada tem a ver com desvio de recursos públicos, corrupção ativa ou passiva de quem quer que seja. Definiria a política como sendo a arte de conduzir o homem ao bem comum por meio de mecanismos que lhes possibilitem paz e harmonia na convivência social. 

Lembro-me quando o nosso presidente Lula, ainda militante da esquerda radical, vinha ao Maranhão fazer comícios na Praça Deodoro. Era uma euforia só! Milhares de pessoas se deslocavam à praça com um sentimento de transformações profundas na forma de governar brasileira. Ele, para mim, era um mito, um “milagreiro”, alguém em que eu me enxergava na minha luta e no meu olhar, às pessoas que mesmo sendo filhos da mesma pátria não tinham cidadania. Mas o tempo passou, nós mudamos, o presidente da república, antes militante e hoje presidente, não precisa mais que façamos militância igual soldados convocados a uma defesa justa e que incorporam o sentimento de nação a cada emboscada enfrentada.  A praça está vazia, o eco do povo já não é mais o mesmo e, o discurso, ah, este também silenciou. Estamos carentes de líderes! O Brasil precisa disso, a juventude precisa reacender a chama de esperanças e continuar alimentando a nobre capacidade de se indignar.

O jogo precisa ser jogado. Brasília nasceu para ser suprema e para abrigar pessoas de bem cujo símbolo representa a capital da República. Precisamos agir com mais rigor quando formos experimentados na política e na cidadania escolhendo melhor, presidente de associações de moradores, nossos vereadores, deputados, prefeitos, governadores, senadores e até o nosso presidente. Devemos nos imaginar no sofrimento do outro, na tolerância e constrangimento de nossos compatriotas e tirarmos as dúvidas possíveis para melhor nos orientar na hora do voto. O voto tem o seu valor útil durante a nossa construção de cidadania. É possível que não tenhamos bolas de cristal, mas muitas das nossas mancadas, que acabam prejudicando coletivamente a sociedade, poderiam ser evitadas, caso não fóssemos ludibriados por charlatões, enganadores, que muito bem disfarçam suas máscaras, usando cada uma delas conforme suas conveniências, geralmente de quatro em quatro anos, conforme a estação eleitoreira.  

O povo já é muito constrangido e ceifado em seus direitos, quando escapam e passam ao largo de seus lares direitos sagrados por leis universais. Não lhe basta à ausência de políticas públicas tão necessárias para uma vida em felicidade, harmonia e prosperidade, em comunidade, faltam-lhe mais: falta-lhe Estado. O que acontece de fato é que a impunidade tem gerado uma violência sem precedentes e, o custo disso, gera abismos intransponíveis, feridas incuráveis, cânceres intermináveis...

O que acontece em Brasília lamentavelmente é comum no Brasil. Justo e admirável seria se os fatos recentes nos levassem a entendê-los como fatos isolados com expectativas otimistas em relação à administração pública. Mas não o é, pois o que tem acontecido é uma relação cíclica de corrupção na história política desta nação chamada Brasil. O Jurisconsulto Miguel Reale nos ensina na sua célebre obra, Lições Preliminares de Direito: “quando perdemos a idéia de valor perderemos a substância da própria existência humana”.  

Nilson de Jesus Ericeira Sousa
Poeta, jornalista, professor, psicopedagogo e estudante de Direito

04/12/2009

Reminiscências ou histórias da alma

Lembro-me quando pequeno, meu pai costurava capota de Jipe forte – era sapateiro por profissão -, fazia chuteira com travas de couro, botinas, polia sapatos para alimentar meus irmãos. Minha mãe, na cozinha, passava o café, mas era um café tão gostoso que quando o aroma vagava pela Rua da Franca e a notícia corria muitos amigos vinham prosear. Era Gentil Piancó, seu Horácio da Graça, prof. Rafael, Zequinha Ericeira, Marcelo, Constantino, Pedro de Aprígio, Eliziê, seu Nena, Wilson Cafusul e outros que não consigo lembrar.

Meus avós de classe sociais bem distintas e nos amavam a sua maneira. Meu avô Pedro Ericeira exerceu influência política na cidade (foi vereador e vice-prefeito e formou chapa com o ex-prefeito Raimundo Prazeres, num duelo com o intelectual, grandíolo e bom filho de Arari, acadêmico José Fernandes). Já Meu avô Eulálio (avô por parte de meu pai Clemente), jazia com sua entrega de azeite de côco, ovos e banana no seu cavalo velho alazão. Mas é essencial nutrir de esperanças essa prole e esse encanto que nos formou íntegros, honestos, obedientes, diferentes no respeito às diferenças, mas submissos jamais.

Na Fazenda Velha, que era de popriedade de meu inesquecível avô Pedro Ericeira, só sinto uma enorme saudade de quando ele chegava e que até o sabiá parecia notar a presença dele e de seus vaqueiros. Seu Pedro chegou! “Chove Chuva, chove chuva, para criar capim, para boi comer, ... para sabiá criar seus filhos”. O vaqueiro Mano Silva berra. As vacas mugem. O boi nelore faz continência abanando as orelhas e balançando o rabo ou por uma mutuca que o deixa inquieto ou como se quisesse anunciar que o vaqueiro vai campear e as vacas banda de ubre, cara-preta e malhada, três vaquinhas leiteiras de estimação, saíram porteira a fora.

É preciso chegar mais cedo, mas a canoa pesa o rio corre e a prosa é comprida. Andorinhas beliscam as águas e a palmeirinha é vista com primeiro sinal de um porto seguro. Todos se alegravam num saudosismo que nenhuma canção, nenhum exílio traduz. Já meu avô Eulálio, recebeu de nós uma junção de palavras que bem traduz o seu amor: Palaio, é da formação do léxico de pai com o final da expressão Eulálio. Mas que em português mais bem posto: ele era brancarão, olhos azuis e pele avermelhada e quando falava a corrente com maior evidência entoava pelas fossas nasais. Suas plantas, seus bichos e sua horta complementavam sua renda e alimentavam sua vida.

Algumas pessoas nem precisavam ser chamadas, pois eram atraídos pelo cheiro do café que minha mãe preparava. Era o café da zitan, tão bom quando o pão quentinho da padaria de Zé Ericeira. Eu meus irmãos brincávamos de um dia ser grande. Mas que utopia, meus pais têm uma complexão física desavantajada e que por muitas vezes fomos discriminados, não só por isso, mas pela carência material. Eu, o mais arrastado e moco, esperava o meu irmão “engenheiro” engendrar suas peças: seus carrinhos, gaiolas, geringonças, pontes, estradas, edifícios, palácios encantados e nossos times de botão. Eu estava certo. Pastor Riba, meu irmão, é teólogo, filósofo e garimpa almas para Deus. Nós tínhamos sempre os últimos modelos de automóvel da época: fusca, gordinho, [zé wilis], rural ou mesmo jipe de Salim Salomão que meu pai costurava os buracos da capota na sua máquina esquerda, que nos nutriu e hoje nos nutre destes referenciais eternos.

Lembro-me com saudade! Pedro de Aprígio (meu compadre querido), que não está mais entre nós e que me considerava muito; Figueiredo com suas peripécias, ideologias e sua agulha matreira; Pedro de Zé Ericeira (Burué) insistente pretendia os últimos retoques no seu velho bute que meu pai deveria esmerilar ele fazer bonito na festa de Bom Jesus. Cirianinho, Zé de Fátima, Bistoca, Nonato, Adelino Fernando, Delegado, Jorge e Eliziê traziam as últimas notícias da CIA - Companhia Inimiga do Trabalho. Postavam-se o dia inteiro no pedaço de madeira que meu pai condecorou de “pau da paciência”. Quem não lembra de seu Dico Prazeres, o mais experiente dos jovens, padrista fiel que transpirava conhecimentos na sua vida ali já sessentona. Nas manhãs da Franca, Zé Melo exibia-se na sua bique ou em seu ford, Ataulfo, moço e afeiçoado e já servia à pátria, Bical (de quem guardo simbolicamente a minha primeira bola na minha infância), Maria Célia, Maria Antônia, Carmem, Altino, Adelino, César, Joãozinho e Nonato de Crispiano.

Na mesma rua e ainda na mesma época, sob o aroma do café, dona Cândida acolhia filhos netos com seu coração infinito. Seu Bina e seu sax entoava notas eternas e decifráveis somente na alma. E dona Leonor cuidava zelosamente de filhos e netos e observava a patró que raspava a Rua da Franca e ainda segura a cerca de sua plantação. Mundicos, Zezinhos, Sarney, pedrinhos na algazarra da rua. Mas é preciso correr porque Bier ainda quer pescar no Tanueiro que a estrela dalva já saiu. O carvão ardia na palha de arroz queimada, os pássaros cantam de tristeza e engaiolados sofriam.

A meançaba, o poste, o grupo, o tamarindeiro e os arizeteiros que contemplam o Mearim. Ele silencioso parece compartilhar dessa vida que nutre em nós. Os pés descalços deslizam no esmeril, os mandis exigentes e esnobes, ainda escolhem a isca. E lá no algodoal escuto tintinritim do martelo e faço a prece. Ninguém sabe onde estou! Num reino encantado, eu sou de Arari! Alegria, encanto, poesia, ternura, saudade e vida abundante numa placenta de amor incondicional. É desse berço que devo grande parte da minha formação.

Nilson de Jesus Ericeira Sousa
Poeta, jornalista, professor, psicopedagogo e estudante de Direito

02/12/2009

Recorte

As lembranças nos remetem

A essa procura interminável.

Inquietude constante

Em sentimentos que afloram

Raios que convergem

No sentido dos pólos de nós



Sentimentos completos

No Amor caminho

Descaminhos

Vida

No mundo

Contemplação...



Os namorados

Enamoram-se

Festejados

Pela natureza

Em silêncio

Escutando

A voz do coração



Num despertar

Que em brados

Festejam, escutam a voz

Num verbo

Com conjugação

Abarca amantes

Escultores do corpo


Da alma

E sono

No despertar de quem nasce

Do outro lado de mim.


Nilson Ericeira

Recorte II

Em tempos quaisquer


Numa ótica


De quem sempre enaltecerá o amor


Num namoro que nem começou


Na gênese


Nessa gênese


Eu sei foi Deus quem fez...




E nessa eterna cantilena do namoro


Nasce o Amor


Nascem e crescem as relações




Em novas atitudes


Águas cristalinas


Em impulsos


Vibrantes neurônios


Assim que o encontro se faz...

Nilson Ericeira